segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Muro no Campus do Vale da UFRGS é Instrumento Estatal de Exclusão


Com o cercamento do Campus do Vale, a UFRGS incorpora em seu projeto de desenvolvimento uma “estratégia” urbana de combate à violência já testada fora dela, basta atentar para a proliferação que se tem dos chamados condomínios horizontais, e o próprio cercamento de outros campi no país, pois se encontra fácil através de uma busca na internet dados referentes às experiências da UFRN, UNESP, UfsCar, USP, aqui no estado a UNIPAMPA, dentre outras. Porém, uma estratégia nada estratégica, visto que sob a égide de uma política do medo ela não passa de um mecanismo de segregação e reprodução da desigualdade, o qual tem como enorme artifício objetivo de exclusão um muro de mais de 3 metros! No entanto, a UFRGS não atenta para o fato de que tal ato vai contra o ideal moderno de cidade e, principalmente cidadão, a partir do momento em que o campus enquanto espaço público deixa de ser o espaço de convívio, devido o isolamento, e passa a ser um espaço de não-convívio. Ora, a construção de um muro ao redor do campus visa um não-convívio entre os universitários e os moradores da vila Santa Isabel, e coloca assim a cidadania como privilégio de quem está do lado de dentro do muro.
Ao objetivar uma separação já existente entre a universidade e a vila ao seu redor, o muro deixa visível que o programa Portas Abertas da UFRGS não passa de uma retórica democrática, que mascara o fato da universidade contribuir ativamente para a reprodução das desigualdades sociais. Abrir as portas da universidade às pessoas durante um dia no ano não diz nada sobre coisa alguma acerca de uma real restituição do saber que se cultiva do lado de dentro do muro. Por isso, ao invés de se preocuparem com as atualizações de seu “Orkut acadêmico”, os “aspirantes a intelectualóides” que fazem acontecer a universidade dita pública deveriam se preocupar com a função primária e última dela, que é a de servir a população que paga pelo desenvolvimento dessa universidade. Nesse sentido, faz-se necessária a relação de indissociabilidade entre uma ação interna acadêmica e uma externa não-acadêmica, a qual pode e deve ter início nos arredores físicos da própria universidade. Pois essa é uma condição fundamental para o desenvolvimento de uma real cidade universitária, coisa que a UFRGS parece não reconhecer, e por isso se fecha e se torna mais um novo feudo moderno; mais um feudo do saber. E há muitos outros feudos de saber espalhados pelo território nacional, e muitos deles, assim como o Campus do Vale, encontram-se mascarados como espaços públicos, quando na verdade sabemos que são espaços estatais.
Portanto, trata-se de um processo mais amplo de fechamento de espaços públicos, desde prédios públicos (basta atentar para as inúmeras catracas que são instaladas nas entradas dos prédios da UFRGS mesmo) até parques e praças são sistematicamente fechados pelo Estado, que agora arbitrariamente fecha de uma só vez o Campus do Vale. Sendo assim, ao impor barreiras físicas a quem deseja usufruir de um espaço que se propõe público, ou seja, de livre acesso e permanência a todos, o Estado além de garantir o domínio sobre esse espaço, garante também a reprodução das desigualdades, ao impedir muitos de ter esse acesso e determinar a quem o tem a inevitável (re)construção de uma barreira simbólica, muito mais forte e difícil de ser derrubada.

domingo, 7 de novembro de 2010

Descanso - Um experimento fotosociológico.

As imagens abaixo compõem um experimento fotosociológico realizado em uma construção civil. A oposição entre a cadeira e a escada é a própria tradução em imagem de uma constante tensão à qual estão submetidos os trabalhadores, uma tensão entre querer parar e ter que continuar. Assim, no ambiente em questão o descanso torna-se algo reservado, esperado, e, sobretudo, privilegiado. Pode-se perceber nas imagens que a cadeira se constitui em um elemento invariante, o qual dá nome ao experimento. Sempre vazia e esquecida, ela observa silenciosamente os trabalhadores em seu dia-a-dia, e espera pelo sagrado momento em que, finalmente, será utilizada: a pausa para o almoço.







Parar





Opostos



Diálogo Cotidiano



À espera

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

EXPOSIÇÃO "APARATO DE EXCLUSÃO"


Aparato de Exclusão


A presente exposição é composta de fotografias do muro erguido a partir deste ano ao redor do campus do vale, assim, busca-se através da linguagem fotográfica levantar uma questão pertinente a todos os que usufruem do campus. O muro separa terrenos contíguos, que em verdade são contínuos, ou pelo menos deveriam ser. Universidade e comunidade deveriam constituir-se de um só continuum, pois indissociável a uma ação interna acadêmica está uma externa não acadêmica, a qual deve começar pelos arredores físicos da própria universidade. Abrir as portas da universidade à comunidade durante um dia no ano não diz nada sobre coisa alguma acerca de uma real restituição do saber que se cultiva do lado de dentro do muro, e a desejada queda do muro invisível que separa uma ação interna de uma externa, certamente não se faz através da construção de um muro físico que por si só se constitui, como demonstram as fotografias, em um aparato de exclusão, utilizado para invisibilizar uma visível relação entre Vale e Vila. Utiliza-se a questão da violência hoje como justificativa para o cercamento dos campi, mas é sabido que tal ato vai contra o ideal moderno de cidade e, principalmente, cidadão, a partir do momento em que o campus enquanto espaço público deixa de ser o espaço de convívio, devido o isolamento, e passa a ser um espaço de não-convívio. Ora, a construção de um muro ao redor do campus visa um não-convívio entre Vale e Vila, e coloca assim a cidadania como privilégio de quem está do lado de dentro do muro. Curioso é que em outubro de 2009 o jornal da UFRGS trouxe uma matéria a respeito dos condomínios horizontais que se proliferam pela cidade, chamados na ocasião de “feudos modernos”; contudo, a universidade incorpora em seu projeto de desenvolvimento esta mesma “solução” urbana, e com isso gera um forte impacto de segregação sócio-espacial ao fazer do próprio campus do vale o mais novo feudo: feudo do saber. E nesse processo de fechamento coloca-se em questão, sobretudo, o quão público é o acesso à universidade dita pública.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Relato ENEARTE 2010


De 19 a 25 de setembro de 2010 aconteceu em Ouro Preto o Encontro Nacional de Estudantes de Arte ENEARTE/2010. O evento, organizado pela FENEARTE e com diversos apoios, contou com a presença de delegações de várias regiões do país, inclusive a nossa mini delegação de 8 pessoas aqui do sul (UFRGS), 5 das artes visuais, 1 das artes cênicas, 1 da comunicação social e eu da ciências sociais. Ouro Preto foi tomada durante uma semana por artistas do país todo, manifestações artísticas aconteciam a todo o momento, caminhar pela cidade tornava-se já uma intervenção, visto que, como coloca Pierre Bourdieu, interagir é diferenciar-se, e também diferenciar-se é intervir, ou seja, o diferenciar-se requer a intervenção, e assim por uma semana vivemos artística e sentimentalmente o cerne do que vem a ser a interação humana. Interação esta procurada, pois que não nos foi dada, como se pensava que seria desde o início, clamamos a interação humana e, sobretudo artística, contra mecanismos de controle social que se faziam plenamente descabidos naquele cenário. O palco e a lona de circo onde ocorria todos os dias após as 23h a mostra de música, com as bandas inscritas e depois a festa com DJ, era cercada por uma barreira de metal, havia seguranças na entrada que revistavam todos e só permitiam a entrada após a apresentação da carteira de identidade, credencial e pulseira (todos estes elementos, se faltasse um, como aconteceu comigo, você não entrava), e para quem não estava inscrito no evento era necessário pagar para entrar. E pensando bem, o evento deve ter sido patrocinado pela Skol, visto que dentro da tenda só havia latinha de 200 ml da Skol à venda por míseros R$2,50, mas, claro, como bons descobridores cosmológicos que somos dávamos logo o jeito de passar a cachaça por debaixo da cerca. Mas isso só mais ao final do evento, quando realmente o som melhorou e valeu a pena pular para dentro do cercado. Até então, era gente jovem reunida, cabelos ao vento, a cachaça mineira para esquentar, o som maravilhoso produzido pela sincronia de pessoas que ali estavam nos embalava a todo o momento, e se ele nos embalava aos policiais ele incomodava, pois que fomos forçados a nos deslocar pelo campus para satisfazer a vontade da polícia militar de querer mostrar que podem nos dizer onde podemos ou não permanecer, de modo que nos constituímos ali naquela noite em um ponto móvel de resistência ao poder, na microfísica daquele campus, que é reflexo de todos os campi das universidades. (E isso ocorria a todo o momento, nunca tinha visto a polícia militar entrar e sair e fazer o que quiser dentro de um campus de uma universidade federal como ocorreu na UFOP) E nessa necessidade de defender o sentir a vida, legitimamos a interação, que a partir daí deixou de ser procurada e passou a nos procurar. Num microcosmo lúdico, rompemos muito com o que Norbert Elias chama de processo civilizador, visto que inúmeras pulsões naturais ao nosso ser ali se encontravam libertas, o que colocava a sobreposição do corpóreo ao racional, ou do sensorial ao cognitivo, enfim, os conceitos são inúteis para descrições desse tipo, porque dizem a mesma coisa, que é nada. Em termos de organização o evento pecou um pouco, pois algumas apresentações atrasaram, assim como oficinas e, inclusive, a alimentação. Houve um grande favorecimento da dança, e do teatro também, o que consequentemente levou a um desfavorecimento das artes plásticas, as quais a meu ver estavam pobremente representadas. O que foi, no entanto, compensado por tudo que é o centro histórico de Ouro Preto, o museu de arte sacra, o de Aleijadinho, as exposições nos espaços culturais, enfim, tudo que acontecia na cidade paralelo ao encontro. Encontro que transformamos em encontro, no movimento sempre resistente em prol do sentir a arte, a vida e, consequentemente, as outras pessoas. Enfim, de tudo fica apenas a expressão genial de minha amiga Paola Astudilla, “lindo de viver!”.

Algumas fotos ENEARTE 2010






segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Carta-manifesto pela liberdade de fazer arte

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Estou com o mundo nas mãos. E não sei o que fazer a não ser ter o mundo em minhas mãos. Saiba que aqui há vida, divina, maravilhosa, sábia, sobretudo, sábia. Sábia porque ensina e aprende ao mesmo tempo. Dá e retira, dá todo o bem e retira todo o mal. Na busca incessante por inteligibilidade própria, ou seja, harmonia, sigo só, só e somente só, a partir do só em busca do só, e não é que eu abrigue um vazio dentro de mim e procure o nada, na verdade estou bem completo em busca do tudo; do Tudo Nisto. Minha vida se resume em uma constante busca pelo Tudo Nisto. Busca essa que para mim se dá numa indissociabilidade entre sentir a vida e saber da vida, busca pelo Tudo Nisto que em si se traduz como a minha busca por inteligibilidade própria, quero saber o que sou e o que são as coisas ao meu redor, e saber como me sou e como as coisas acontecem ao meu redor. Ao passo que sinto o sangue que pulsa em minhas veias, sinto a brisa fria que adentra pela janela e vem acariciar minha face, sinto a doce barbaridade de não se encaixar, e sinto as cores, muitas cores e acredito sim num desengessamento de esquemas de pensamento através das cores. As pessoas em sua maioria associam diretamente as cores à arte, e cada vez se vê menos pessoas coloridas pelas ruas da cidade. E isso se dá porque existem mecanismos sociais destinados a impedir as pessoas de sentirem a arte e, consequentemente, sentirem a vida. Deve-se então instigar as pessoas a pensarem sobre o que é a arte, o que é fazer arte e porque da sua importância. As pessoas não conseguem sentir a sua própria vida também porque não sabem da sua própria vida, na medida em que tais mecanismos, a serviço da dominação, privam as pessoas do conhecimento sobre si mesmas, que é o conhecimento sobre o social em que se compõem. Existe, portanto, também a urgente necessidade de instigar a tomada de consciência das pessoas sobre o que se passa ao seu redor, para que assim possam tomar consciência de si próprias, e acabem por entender que a vida é para ser sentida, experienciada, vivida. Acabem por entender que cada momento é único e específico, entender que a vida inteira pode ser qualquer momento, a partir do momento em que o momento vai. O momento se vai e não volta mais, este momento enquanto escrevo esta carta jamais voltará, jamais voltarei a escrever “jamais” assim como escrevo nesse exato momento, e isso que quando leres esta carta já será outro momento acerca desse momento. Estamos em constante fluxo vivente, a mudança é ontológica, na medida em que o próprio tempo muda, pois basta um passo e já não se está mais no mesmo lugar, e mais, já não se é mais o mesmo. Costumo dizer que quero ser sempre eu mesmo, mas jamais quero ser o mesmo. No mesmo sentido digo que quero saber de tudo, mas não tudo. Frases feitas não sei por quem, mas que traduzem perfeitamente um estado corporal e mentalmente harmônico do ser, na medida em que colocam em questão o caráter experienciável da vida, e sua sabedoria infinita enquanto tal. Para terminar, conclui-se que a arte proporciona a pessoa o sentimento de criação, de contemplação do que é criado, e criação a partir da contemplação, num processo que nada mais é que o reflexo de um processo maior de vida. Sentir a arte é sentir a vida, a arte é que pode proporcionar às pessoas o entendimento, sobretudo, de si mesmas, o que elas são, como são, e porque são como são. Dentro deste escopo, a arte em si é o Tudo Nisto propriamente dito, é aquilo que os nossos ancestrais praticavam nas paredes das cavernas, antes mesmo de quaisquer sinais do que hoje se compreende por civilização; antes de “civilizar-se” o homem já fazia arte. E assim como era antes de toda e qualquer divisão social, hoje também qualquer um pode fazer arte, o que nos diferencia daqueles é que apenas temos hoje mais possibilidades objetivas para isso. Logo, nem todos são artistas, mas todos podem, e devem, fazer arte.

Diogo Dubiela.

Este Blog

Este blog faz parte da minha vida. Ao partir da ideia de que devo tomar minha própria vida como um laboratório social, deixei de ler livros apenas para saber o que eles dizem das coisas, e passei a experienciar toda a minha vida, todas as coisas que acontecem comigo e ao meu redor ao mesmo tempo agora, de modo que hoje os livros não mais me determinam e sim me norteiam no entender estas coisas que são ao mesmo tempo únicas e coletivas, e, sobretudo, experienciadas. Todo material aqui postado transparece minha sede por sentir a vida e a minha equivalente fome por interpretar ela. Trata-se da busca por entendimento de si próprio que é o entendimento das coisas ao meu redor.

Somos todos um, mas não somos todos iguais.
Diogo Dubiela.


Foto: "Pode ser", 2010.