De 19 a 25 de setembro de 2010 aconteceu em Ouro Preto o Encontro Nacional de Estudantes de Arte ENEARTE/2010. O evento, organizado pela FENEARTE e com diversos apoios, contou com a presença de delegações de várias regiões do país, inclusive a nossa mini delegação de 8 pessoas aqui do sul (UFRGS), 5 das artes visuais, 1 das artes cênicas, 1 da comunicação social e eu da ciências sociais. Ouro Preto foi tomada durante uma semana por artistas do país todo, manifestações artísticas aconteciam a todo o momento, caminhar pela cidade tornava-se já uma intervenção, visto que, como coloca Pierre Bourdieu, interagir é diferenciar-se, e também diferenciar-se é intervir, ou seja, o diferenciar-se requer a intervenção, e assim por uma semana vivemos artística e sentimentalmente o cerne do que vem a ser a interação humana. Interação esta procurada, pois que não nos foi dada, como se pensava que seria desde o início, clamamos a interação humana e, sobretudo artística, contra mecanismos de controle social que se faziam plenamente descabidos naquele cenário. O palco e a lona de circo onde ocorria todos os dias após as 23h a mostra de música, com as bandas inscritas e depois a festa com DJ, era cercada por uma barreira de metal, havia seguranças na entrada que revistavam todos e só permitiam a entrada após a apresentação da carteira de identidade, credencial e pulseira (todos estes elementos, se faltasse um, como aconteceu comigo, você não entrava), e para quem não estava inscrito no evento era necessário pagar para entrar. E pensando bem, o evento deve ter sido patrocinado pela Skol, visto que dentro da tenda só havia latinha de 200 ml da Skol à venda por míseros R$2,50, mas, claro, como bons descobridores cosmológicos que somos dávamos logo o jeito de passar a cachaça por debaixo da cerca. Mas isso só mais ao final do evento, quando realmente o som melhorou e valeu a pena pular para dentro do cercado. Até então, era gente jovem reunida, cabelos ao vento, a cachaça mineira para esquentar, o som maravilhoso produzido pela sincronia de pessoas que ali estavam nos embalava a todo o momento, e se ele nos embalava aos policiais ele incomodava, pois que fomos forçados a nos deslocar pelo campus para satisfazer a vontade da polícia militar de querer mostrar que podem nos dizer onde podemos ou não permanecer, de modo que nos constituímos ali naquela noite em um ponto móvel de resistência ao poder, na microfísica daquele campus, que é reflexo de todos os campi das universidades. (E isso ocorria a todo o momento, nunca tinha visto a polícia militar entrar e sair e fazer o que quiser dentro de um campus de uma universidade federal como ocorreu na UFOP) E nessa necessidade de defender o sentir a vida, legitimamos a interação, que a partir daí deixou de ser procurada e passou a nos procurar. Num microcosmo lúdico, rompemos muito com o que Norbert Elias chama de processo civilizador, visto que inúmeras pulsões naturais ao nosso ser ali se encontravam libertas, o que colocava a sobreposição do corpóreo ao racional, ou do sensorial ao cognitivo, enfim, os conceitos são inúteis para descrições desse tipo, porque dizem a mesma coisa, que é nada. Em termos de organização o evento pecou um pouco, pois algumas apresentações atrasaram, assim como oficinas e, inclusive, a alimentação. Houve um grande favorecimento da dança, e do teatro também, o que consequentemente levou a um desfavorecimento das artes plásticas, as quais a meu ver estavam pobremente representadas. O que foi, no entanto, compensado por tudo que é o centro histórico de Ouro Preto, o museu de arte sacra, o de Aleijadinho, as exposições nos espaços culturais, enfim, tudo que acontecia na cidade paralelo ao encontro. Encontro que transformamos em encontro, no movimento sempre resistente em prol do sentir a arte, a vida e, consequentemente, as outras pessoas. Enfim, de tudo fica apenas a expressão genial de minha amiga Paola Astudilla, “lindo de viver!”.
Neste blog procurarei publicar reflexões críticas sobre determinados aspectos da dinâmica da sociedade perceptíveis no cotidiano da cidade.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Relato ENEARTE 2010
De 19 a 25 de setembro de 2010 aconteceu em Ouro Preto o Encontro Nacional de Estudantes de Arte ENEARTE/2010. O evento, organizado pela FENEARTE e com diversos apoios, contou com a presença de delegações de várias regiões do país, inclusive a nossa mini delegação de 8 pessoas aqui do sul (UFRGS), 5 das artes visuais, 1 das artes cênicas, 1 da comunicação social e eu da ciências sociais. Ouro Preto foi tomada durante uma semana por artistas do país todo, manifestações artísticas aconteciam a todo o momento, caminhar pela cidade tornava-se já uma intervenção, visto que, como coloca Pierre Bourdieu, interagir é diferenciar-se, e também diferenciar-se é intervir, ou seja, o diferenciar-se requer a intervenção, e assim por uma semana vivemos artística e sentimentalmente o cerne do que vem a ser a interação humana. Interação esta procurada, pois que não nos foi dada, como se pensava que seria desde o início, clamamos a interação humana e, sobretudo artística, contra mecanismos de controle social que se faziam plenamente descabidos naquele cenário. O palco e a lona de circo onde ocorria todos os dias após as 23h a mostra de música, com as bandas inscritas e depois a festa com DJ, era cercada por uma barreira de metal, havia seguranças na entrada que revistavam todos e só permitiam a entrada após a apresentação da carteira de identidade, credencial e pulseira (todos estes elementos, se faltasse um, como aconteceu comigo, você não entrava), e para quem não estava inscrito no evento era necessário pagar para entrar. E pensando bem, o evento deve ter sido patrocinado pela Skol, visto que dentro da tenda só havia latinha de 200 ml da Skol à venda por míseros R$2,50, mas, claro, como bons descobridores cosmológicos que somos dávamos logo o jeito de passar a cachaça por debaixo da cerca. Mas isso só mais ao final do evento, quando realmente o som melhorou e valeu a pena pular para dentro do cercado. Até então, era gente jovem reunida, cabelos ao vento, a cachaça mineira para esquentar, o som maravilhoso produzido pela sincronia de pessoas que ali estavam nos embalava a todo o momento, e se ele nos embalava aos policiais ele incomodava, pois que fomos forçados a nos deslocar pelo campus para satisfazer a vontade da polícia militar de querer mostrar que podem nos dizer onde podemos ou não permanecer, de modo que nos constituímos ali naquela noite em um ponto móvel de resistência ao poder, na microfísica daquele campus, que é reflexo de todos os campi das universidades. (E isso ocorria a todo o momento, nunca tinha visto a polícia militar entrar e sair e fazer o que quiser dentro de um campus de uma universidade federal como ocorreu na UFOP) E nessa necessidade de defender o sentir a vida, legitimamos a interação, que a partir daí deixou de ser procurada e passou a nos procurar. Num microcosmo lúdico, rompemos muito com o que Norbert Elias chama de processo civilizador, visto que inúmeras pulsões naturais ao nosso ser ali se encontravam libertas, o que colocava a sobreposição do corpóreo ao racional, ou do sensorial ao cognitivo, enfim, os conceitos são inúteis para descrições desse tipo, porque dizem a mesma coisa, que é nada. Em termos de organização o evento pecou um pouco, pois algumas apresentações atrasaram, assim como oficinas e, inclusive, a alimentação. Houve um grande favorecimento da dança, e do teatro também, o que consequentemente levou a um desfavorecimento das artes plásticas, as quais a meu ver estavam pobremente representadas. O que foi, no entanto, compensado por tudo que é o centro histórico de Ouro Preto, o museu de arte sacra, o de Aleijadinho, as exposições nos espaços culturais, enfim, tudo que acontecia na cidade paralelo ao encontro. Encontro que transformamos em encontro, no movimento sempre resistente em prol do sentir a arte, a vida e, consequentemente, as outras pessoas. Enfim, de tudo fica apenas a expressão genial de minha amiga Paola Astudilla, “lindo de viver!”.
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Lindo de sentir esta tua descrição..
ResponderExcluirlindo é o que vejo pulsar enm ti nesta tentativa de unir o que se tem em sala de aula ("centro do saber")com o que se vive na pele. Como diz Rubens Alves, precisamos de uma educação dos sentidos. Creio que a nossa compreensão da sociedade a qual nos propomos seja uma "COMPREENSÃO SENSITIVA", afinal somos partes da teoria da vida, a qual escapa dos livros e se perde nas ruas e ali há a comunhão!
te amo, meu bem!
"Sorte do mundo ter quem não compete e é competente. TENTE!
Sorte do mundo ter quem sonhe e se mantenha acordado.
Sorte do mundo saber que você está me ouvindo com os olhos ou com as mãos.
Sorte do mundo haver a brincadeira dos sentidos.
Sorte Minha, Sorte Sua
Ter EU e Ter VOCÊ..." (Projeto Cru)
Eternamente, a Tia Mi
Lindo! Lindo seu discurso, sua palavra sempre bela e precisa, sempre acertando a mira do meu coração! Sigo nesta tentativa de indissociabilidade entre sentir e saber que é também a sua tentativa e de tantos outros que acreditam no que há por trás.
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